Flash Crash cripto (out/2025): limpeza e aprendizadoBom, gostaria de me desculpar pela ausência. Estive ocupado com relatórios inacabados no Q3 e principalmente, operando day trading nos últimos 15 dias, afinal, momento evidente para short, inclusive foi onde eu melhor me saí. Sem delongas, hoje quero trazer um texto mais seco e justo para vocês, mostrando como eu mantive minha carteira intacta mesmo com essa limpeza brutal no livro de ordens que rolou este mês.
O choque exógeno de outubro de 2025 desencadeou a maior onda de liquidações do ano no mercado cripto, em questão de horas, sob livros de ofertas rarefeitos e retirada de provedores de liquidez. A dinâmica foi típica de regime risk-off: compressão brusca em BTC/ETH, drawdowns severos em altcoins e corrida por hedge , seguida de normalização parcial com open interest menor. A implicação operacional é direta, em choques dessa natureza, a leitura do higher timeframe (HTF) comanda; o lower timeframe (LTF) apenas transmite a ordem. Parece que a turma que opera padrões gráficos não pensou muito nisso.
A base mental adequada precede qualquer tática. Como sintetiza Douglas, “While this may sound complicated, it all boils down to learning to believe that: (1) you don't need to know what's going to happen next to make money; (2) anything can happen; and (3) every moment is unique.” (Douglas, 2000, p. 10). Em tradução literal: “Embora isso pareça complicado, tudo se resume a acreditar que: (1) você não precisa saber o que vai acontecer a seguir para ganhar dinheiro; (2) qualquer coisa pode acontecer; e (3) cada momento é único.” A consequência prática é aceitar o risco antes da execução: “Accepting the risk means accepting the consequences of your trades without emotional discomfort or fear.” (Douglas, 2000, p. 53). Sem essa aceitação, o operador personaliza o resultado e perde o controle do processo.
Acredito que foi exatamente o foco no "quanto vou ganhar" e não em "quanto vou perder" que organizou o maior evento de liquidações forçadas do mundo cripto. Confesso que estava acordado no momento, e operando um short no modo isolado e com pouquíssima alavancagem, o que já é de costume. Foi uma cena incrível e ao mesmo tempo inusitada. Em poucas horas, um trade muito lucrativo, mas que também me trouxe algumas lições.
A microestrutura fornece o critério de hierarquia temporal. “Market-generated information… is based solely upon real order flow… enabling a more accurate interpretation of which timeframe is in control of market movement.” (Dalton; Dalton; Jones, 2006, p. 39–40). Em outubro, o gatilho macro (tarifas EUA–China) reprecificou o prêmio de risco no HTF (semanal/diário). Uma vez deslocada a zona de valor no horizonte maior, os LTFs amplificaram o choque com overshooting, sobretudo porque os livros ficaram rasos — o price impact de ordens moderadas aumentou, a dispersão entre venues cresceu e o slippage se alargou. O que claro, ocasionou na queda brusca, procurando por estas ordens, que dificilmente iria encontrar, afinal, que instituição, gerindo margens bilionárias, deixariam suas ordens de LTF sem stops ou margens cruzadas hiper alavancadas? Aparentemente só o varejo que curte fazer isso de forma recorrente e expressiva.
É só ver o que aconteceu com o TOTAL3 e OTHERS nesse mesmo tempo: veio tocar um order block antigo no HTF. Nada de novo no mercado.
A heurística de Wyckoff permanece útil para interpretar o comportamento agregado: “…all the fluctuations in the market… should be studied as if they were the result of one man’s operations… the Composite Man…” (Wyckoff, Sec. 9, p. 1–2). Em choques desse tipo, a retração de market makers e o desalinhamento temporário de inventário criam liquidity vacuum; o preço “procura” a liquidez, varrendo pools de stops acima/abaixo de extremos prévios. O traço distintivo do episódio foi a combinação de order books rasos, alavancagem elevada e concentração de risco em cross margin, elementos que potencializam o efeito cascata. Triste, porém a realidade é essa. Operar com margem cruzada só faria sentido, se estivéssemos em fundos evidentes, e ainda assim, alavancagens altas só trariam mais prejuízos emocionais, o que prejudica o bom analista.
No plano factual (10 a 20 out. 2025), os registros jornalísticos convergem: liquidações bilionárias em horas, mínimas recentes em BTC (~US$ 104,7 mil) e pressão correlata em ETH, com alts apresentando caudas mais pesadas. Houve recomposição parcial na sequência, porém com open interest deprimido e postura defensiva de fluxo institucional . A cadeia causal é enxuta: choque exógeno, secagem de liquidez, varreduras de liquidity pools (ICT), disparo de stops alavancados o que levaria a uma limpeza profunda e normalização parcial.
Importa sublinhar o elemento endógeno: a falta de cautela operacional nas semanas anteriores criou as condições para a magnitude do evento. Euforia de sentimento levou a margens inteiras operadas em cross margin, alavancagens acima da prudência e tolerâncias de risco mal calibradas. Em ambientes assim, a convexidade joga contra os despreparados, basta uma mudança de HTF para que ordens a mercado encontrem pouco depth, gerando liquidações em cascata. A anedótica pública, feeds de grandes corretoras repletos de pequenos traders relatando perdas é compatível com o mecanismo, posicionamento frágil e disciplina deficiente em stops transformam volatilidade esperada em dano permanente. Como adverte Williams, a proteção nasce de uma crença operacional deliberadamente cética: “Adopt my belief that the current trade will most likely not work out and you… will protect yourself with stops.” (Williams, 1999, p. 9; ver também p. 201–202). E, como lembra Tharp, o risco relevante não está no mercado em si, mas no operador: “The risk is not in the market, it’s in the trader himself.” (Tharp, 2006, p. 114).
Do ponto de vista metodológico, o protocolo ICT oferece um roteiro simples e verificável: definir o viés no HTF (semanal/diário) a partir de zonas de valor e liquidity pools; aguardar confirmação no LTF via market structure shift e execução em fair value gaps alinhados ao contexto maior. Em outubro, as varreduras ocorreram onde o mapeamento de liquidez indicava: stops acumulados em máximas/mínimas recentes e resting liquidity em áreas de congestionamento prévio. A execução sem confluência HTF/LTF aumentou o risco de fade contra o fluxo dominante — exatamente o que se viu nos momentos de pânico.
Acredito que o que se viu não é o que gostaríamos, é claro. Porém, é o que aconteceu, e fica muito evidente quem perde (e o quanto perde) e quem se mantem, ganhando alguns dólares ou somente perdendo um risco mínimo perto do capital total. Gosto muito de sintetizar metas semanais, onde o risco se esvai no primeiro trading vencedor. Operações mesmo que de swing trade, precisam ter alvos pré planejados, e uma constante avaliação no HTF. Principalmente com métricas de delta, net volume e OBV. Agora, no quesito alavancagem, prefiro usar margens maiores com alavancagens mínimas. Uso estruturas de preço para definir stops curtos.
Lembro-me bem de estar sentado com a minha namorada na sala. Estávamos tomando um vinho e conversando, enquanto eu já estava com a operação aberta. Eu falando algumas coisas para ela sobre IPDA, e como isso impactava na direção do rolo do preço, e o quanto isso se parece com um eletro cardiograma (ela também é da área da saúde). Meu short position em um altcoin me gerou um lucro forte em relação ao tamanho do risco, um operação de 8:1.
Essa tranquilidade só foi possível porque, mesmo com quase tudo tombando, não opero institivamente. Se eu já havia feito a posição antes do crash, depois dele nada de short position, e só poderia operar um long quando o MSS + FVG estivesse nítido no HTF, pelo menos no 4h, porém gosto muito de usar o 12h. No mercado a vista, aproveitei para me expor mais em alguns ativos e corrigir preço médio. O que só é possível com caixa parado e acumulado. Eis a questão: performance vem de planejamento e não somente de oportunidades.
No mais, acredito estarmos diante de uma altseason que pode e deve ser violenta nos próximos meses, afinal, limpamos o book, agora o que temos são instituições acumulando com descontos absurdos de 50 a 70% ativos que mudarão a maneira como vemos o dinheiro na próxima década.
Referências: (Douglas, 2000; Dalton; Dalton; Jones, 2006; Wyckoff, Sec. 9; Williams, 1999; Tharp, 2006; e noticiário/insights de Reuters, Barron’s, CoinDesk, Kaiko, entre outros).
