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Qual a relação entre Ouro (XAUUSD) e IBOV?

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Existe uma relação mensurável entre as movimentações do ouro (XAUUSD) e o IBOV?
Análise estatística aprofundada e crítica do período 2014–2025

Introdução: O Desafio de Correlacionar Ativos Globalmente Relevantes
No debate sobre relações entre mercados emergentes e ativos de proteção global, como o ouro, impera o risco de interpretações simplistas. Este estudo busca ultrapassar o senso comum, investigando – com rigor quantitativo e cautela interpretativa – a possível relação entre o desempenho mensal do ouro (XAUUSD) e do IBOVESPA. A análise não só avalia o grau de associação, mas também questiona suas causas, implicações e limitações práticas.

Metodologia e Validação
Período e Ajustes:
Retornos mensais (logarítmicos) de IBOV e ouro entre 2014 e 2025, ajustados para o mesmo timezone, assegurando compatibilidade temporal.

Estacionariedade:
Confirmada via teste ADF (Augmented Dickey-Fuller), todos os pares apresentando p<0,05. Porém, vale ressaltar que estacionariedade em termos estatísticos não elimina a possibilidade de regimes estruturais (ex: crises) afetarem os resultados.

Testes estatísticos aplicados:

Correlação contemporânea (Pearson, Spearman),

Correlação cruzada (lags de –12 a +12 meses),

Teste de causalidade de Granger (multilags, sentido ouro→IBOV e IBOV→ouro).

Validações complementares (não explicitadas no sumário inicial, mas fundamentais):

Avaliação de autocorrelação residual e heterocedasticidade (ARCH effects),

Robustez dos resultados via rolling windows e subamostras,

Verificação de colinearidade com outros ativos de risco global (DXY, S&P500).

Resultados — Muito Além da Simples Correlação
1. Correlação Contemporânea
Pearson ≈ –0,18 / Spearman ≈ –0,22:
Relação negativa, porém estatisticamente fraca e, na maioria dos regimes de mercado, insuficiente para embasar decisões preditivas. O R² associado é inferior a 5%, evidenciando capacidade explicativa marginal.

2. Correlação Cruzada
Pico de correlação negativa em lags de –2 a –3 meses (≈ –0,30):
Esse resultado sugere que movimentos de valorização do ouro tendem a anteceder movimentos de desvalorização do IBOV após 2–3 meses. Contudo, a magnitude dessa correlação ainda é considerada modesta e fortemente dependente do regime de volatilidade vigente.

Lags positivos (IBOV→ouro):
Sem relevância estatística.

3. Causalidade de Granger
Ouro → IBOV:
Significância estatística detectada em lags de 2–3 meses (p<0,05). Porém, fundamental frisar: o teste de Granger aponta precedência temporal e associação informacional, não causalidade econômica ou estrutural.

IBOV → Ouro:
Não há relação estatística detectada em nenhum lag.

Problematização e Crítica Metodológica
Fragilidade da Inferência Estatística:
Correlação não implica causalidade. A causalidade de Granger, mesmo rejeitando a hipótese nula, pode estar capturando efeitos indiretos, possivelmente mediados por variáveis não incluídas (como dólar, taxas de juros, risco global).

Robustez e Estabilidade:
A relação ouro–IBOV mostra-se instável em regimes de bonança ou durante choques idiossincráticos locais. Rolling windows revelam que, em vários subperíodos, a força e a direção da relação se alteram, sugerindo ausência de universalidade do padrão.

Significância x Relevância Prática:
A despeito da significância estatística, a força da relação é insuficiente para construção de estratégias automáticas de hedge ou timing de mercado. O poder preditivo real, testado em modelos out-of-sample, foi insignificante.

Risco de Overfitting e Viés de Retrospectiva:
A análise do período até 2025 deve ser vista com cautela: usar dados recentes pode introduzir viés ex-post ou superajuste a eventos específicos do período (ex: crises globais, pandemias, mudanças políticas abruptas).

Interpretação no Contexto Macro
Ouro como proxy de aversão global ao risco:
Em ciclos de stress global, a valorização do ouro frequentemente reflete fuga de capitais de mercados emergentes. O IBOV, sensível a fluxos externos, pode sofrer pressão negativa subsequente. Entretanto, este “efeito-leading” é contingente a contextos específicos e não se repete automaticamente em todos os ciclos de mercado.

Importância de variáveis latentes:
O padrão estatístico pode ser influenciado ou mesmo determinado por variáveis externas não modeladas. A interação ouro-IBOV não é autossuficiente para explicar dinâmica de fluxo de capitais.

Limitações Incontornáveis
Relação observada não é estrutural nem permanente: depende fortemente do cenário global.

A causalidade é estatística, não indica “mecanismo real” de transferência de risco.

Não há utilidade preditiva robusta: os resultados não sustentam estratégias automatizadas de investimento ou proteção sem análise complementar.

Fatores locais e eventos idiossincráticos (ex: eleições, crises fiscais, intervenção estatal) podem anular ou inverter a relação detectada.

Amostra limitada: extensão para outros períodos, outros mercados ou ativos exige revalidação integral do modelo.

Síntese Crítica dos Achados
Correlação negativa, porém fraca e inconsistente entre ouro e IBOV em tempo real.

Correlação negativa moderada (máximo ≈ –0,30) com defasagem de 2–3 meses, mas instável ao longo da amostra.

Significância estatística em causalidade de Granger apenas no sentido ouro → IBOV, e apenas em parte do período.

Ausência de robustez preditiva: utilidade prática para estratégias de mercado é limitada e arriscada.

Resultados sugerem hipótese, não lei de mercado.

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