3ª Guerra Mundial: percepção e expectativa na análise de ativos

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Peço de antemão desculpas pela ausência. Em outubro do ano passado, como aludido no texto anterior, estava trocando de hospital. Me sinto muito melhor acolhido e respeitado neste novo processo do que nos mais de 6 anos na equipe da ortopedia no Estadual de São Paulo onde estava. Porém, no acumulo entre neuro e ortopedia, tive que me desdobrar entre análise e cirurgias. Não foi fácil. Enfim, quero trazer um texto mais provocativo, principalmente em relação a demandas de setores importantes com o atual conflito no Oriente Médio.

Operando ativos na B3, há uma necessidade de montar posições em assets que corroborem com a contínua demanda e aumento inflacionário, dependentes da cadeia de produção do petróleo e energia. Foi o que pautou minha última pesquisa e análise de mercado e o que tem me feito quebrar a cabeça e trabalhar em pleno domingo.

A análise de ativos no setor de energia, especialmente em ambientes de elevada instabilidade macroeconômica, exige uma abordagem que transcenda a observação isolada de indicadores financeiros ou movimentos de preço. Torna-se essencial compreender o alinhamento entre aquilo que está sendo observado no presente e aquilo que o mercado já precificou como expectativa futura. Essa distinção é determinante para a construção de operações com assimetria favorável, sobretudo quando se considera a interação entre geopolítica, política monetária e estrutura de demanda.

O cenário atual, marcado pelo agravamento das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã, introduz um elemento de pressão significativa sobre os preços das commodities energéticas. A possibilidade de interrupções logísticas, especialmente em regiões estratégicas como o Estreito de Hormuz, eleva o prêmio de risco do petróleo e, por consequência, impacta toda a cadeia de distribuição e consumo. Esse movimento, no entanto, não deve ser interpretado de forma linear como um gatilho automático de valorização sustentável dos ativos do setor. Ao contrário, trata-se de um fenômeno que frequentemente antecipa expectativas, inflando preços em um estágio inicial, antes mesmo da materialização plena dos efeitos operacionais.

Nesse contexto, a análise precisa distinguir entre preço impulsionado por expectativa e preço sustentado por execução. Como aponta Damodaran, “o valor de um ativo deriva de fluxos de caixa esperados ajustados ao risco, e não de narrativas de curto prazo” (DAMODARAN, 2021). Assim, quando um evento geopolítico relevante ocorre, o mercado tende a reagir de forma antecipatória, precificando cenários futuros que podem ou não se concretizar com a intensidade esperada.

Essa dinâmica é particularmente relevante ao se analisar ativos como a Vibra Energia, que operam em um elo intermediário da cadeia energética. Embora o aumento dos preços das commodities possa elevar a receita nominal, a compressão de margens, a regulação e o custo de capital elevado limitam a conversão desse movimento em geração efetiva de valor. Além disso, o ambiente de juros ainda restritivo no Brasil amplia o custo da dívida, reduzindo o fluxo de caixa livre e pressionando o valuation.

Diante desse cenário, a decisão de aguardar um retrocesso no preço do ativo não se fundamenta em uma visão pessimista, mas sim em uma leitura de desalinhamento entre preço e fundamento. Quando um ativo se encontra em níveis considerados premiados, especialmente após movimentos impulsionados por fatores exógenos como conflitos geopolíticos, aumenta a probabilidade de correções técnicas que busquem reequilibrar essa relação.

Essa abordagem encontra respaldo na metodologia do Inner Circle Trader (ICT), na qual a análise em mercado spot exige a leitura constante do contexto vigente. Não se trata apenas de identificar zonas técnicas, mas de compreender se essas zonas estão sendo formadas sob influência de liquidez orgânica ou de distorções temporárias. Nesse sentido, o preço elevado, quando sustentado por narrativa e não por acumulação estrutural, tende a oferecer menor margem de segurança para novas posições.

A comparação com o movimento realizado anteriormente em Braskem (BRKM5) ilustra de forma clara essa diferença de contexto. Naquele período, a construção da posição ocorreu em um ambiente menos contaminado por choques geopolíticos de grande escala, permitindo que a valorização do ativo estivesse mais diretamente relacionada à recuperação da demanda e à normalização operacional. O resultado foi uma valorização superior a 40%, sustentada por fundamentos que ainda não estavam plenamente precificados pelo mercado.

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No cenário atual, entretanto, a presença de fatores exógenos mais intensos altera significativamente a dinâmica de precificação. O mercado reage de forma mais rápida e, muitas vezes, mais exagerada, incorporando expectativas que podem não se materializar integralmente. Isso reduz a eficiência de entradas tardias, especialmente em níveis de preço já elevados.

Apesar disso, é fundamental destacar que a análise não deve ser orientada pela notícia em si, mas pela demanda subjacente. A notícia atua como catalisador, mas não como fundamento. A verdadeira sustentação de um movimento de alta reside na capacidade do mercado de absorver oferta de forma contínua, indicando a presença de demanda institucional. Como enfatiza Wyckoff, “o movimento do preço é a manifestação visível das forças de oferta e demanda em equilíbrio dinâmico” (WYCKOFF, 1910).

Dessa forma, mesmo em um ambiente carregado de ruído informacional, a leitura da estrutura de mercado permanece central. Se a demanda estrutural se mantém, correções de preço tendem a representar oportunidades, e não sinais de deterioração. Contudo, para que essa leitura seja eficaz, é necessário disciplina na espera por zonas de desconto, onde o risco já foi parcialmente absorvido pelo mercado.

Conclui-se, portanto, que o alinhamento entre percepção e expectativa deve ser constantemente ajustado ao contexto macroeconômico vigente. Em cenários de alta influência geopolítica, como o atual, a probabilidade de distorções de preço aumenta, exigindo maior seletividade e paciência na execução. A decisão de aguardar um retrocesso no preço do ativo, nesse sentido, não representa inação, mas sim uma estratégia deliberada de posicionamento em condições de maior assimetria.

Essa postura, alinhada à compreensão de que o mercado precifica expectativas antes de resultados, permite ao operador não apenas reagir aos movimentos, mas antecipar os pontos em que o preço deixa de refletir a realidade estrutural e passa a incorporar excessos. É nesse espaço, entre expectativa e execução, que se encontram as oportunidades mais relevantes.

Prevejo um preço menor nos próximos meses, sendo o cenário laboral reavaliar o cenário de fluxo de caixa e demanda posterior da empresa. Desta forma será possível organizar um position neste papel e neste setor.

Nota
A cadeia de insumos estratégicos e de energia está ganhando novos valores, isso não é passível de negação. Porém, não é novo que o petrodólar é ativo economicamente instável durante conflitos globais. A atual demanda da escala de produção e abastecimento de energia demonstra profunda correlação, mas deve ser lida de forma separada, principalmente crescimento do BRICS como um bloco capaz de destituir o dólar como valor intrínseco de troca e par para qualquer ativo global. No longo prazo vejo mudanças gigantescas no modus operandi da economia global. Estamos diante de uma mudança significativa no curto prazo, e devemos ser realistas: os EUA estão em colapso.

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