"OS JUROS NÃO IRÃO CAIR, JÁ ESTAMOS EM DOMINÂNCIA FISCAL"
OS JUROS NÃO CAEM MAIS, JÁ
ESTAMOS EM DOMINÂNCIA FISCAL
Relatório de Inteligência Macroeconômica: A Dicotomia do
Crescimento sob Juros Restritivos e o Risco de Dominância Fiscal
Data: 15 de Janeiro de 2026
Assunto: Análise Estrutural dos Dados de Varejo de Novembro/2025, Dinâmica Inflacionária e
Cenário Fiscal para o Ano Eleitoral de 2026.
1. Sumário Executivo e Tese Central
A divulgação dos resultados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) na manhã desta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, marca
um ponto de inflexão na análise da conjuntura econômica nacional. Os dados revelam um
crescimento de 1,0% no volume de vendas do varejo restrito em novembro de 2025 na
comparação com outubro, e uma expansão de 1,3% na comparação interanual.1 Este
desempenho, significativamente acima da mediana das expectativas de mercado — que
projetava uma alta modesta de 0,30% na margem 2 — consolida uma narrativa que desafia a
ortodoxia dos modelos de transmissão da política monetária: a economia brasileira apresenta
uma resistência estrutural ao ciclo de aperto monetário, mantendo o consumo aquecido
mesmo diante de uma Taxa Selic estacionada em patamares contracionistas de 15,00% ao
ano.5
A tese central deste relatório é que o Brasil atravessa um fenômeno de "imunização parcial"
aos juros. Esta imunização é sustentada por três pilares interconectados que neutralizam o
efeito da política monetária: (1) um canal de renda historicamente robusto, com desemprego
em mínimas de 5,2% e massa salarial recorde, que se sobrepõe ao canal de crédito; (2) um
efeito riqueza perverso derivado do rentismo, onde as taxas de juros elevadas transferem
renda para as classes de maior poder aquisitivo, sustentando o consumo de bens e serviços
premium; e (3) um impulso fiscal expansionista em ano eleitoral, materializado no Orçamento
de 2026 recém-sancionado com R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.7
Este cenário coloca o Banco Central do Brasil em uma encruzilhada complexa. A convergência
da inflação para a meta de 3,0% torna-se uma tarefa de Sísifo, onde o esforço monetário é
constantemente compensado pela expansão fiscal e pela inércia dos preços de serviços. O
risco de dominância fiscal — momento em que a política monetária perde a capacidade de
controlar o nível de preços devido à insustentabilidade da dívida pública — deixa de ser uma
hipótese teórica remota para figurar como um cenário de cauda com probabilidade crescente
nas avaliações de risco para o final da década.
Ao longo deste documento, dissecaremos as minúcias dos dados setoriais do varejo, a
dinâmica inflacionária subjacente, as pressões do calendário eleitoral sobre as contas
públicas e as implicações desse "novo normal" de juros altos para a alocação de capital e a
estratégia macroeconômica.
2. Anatomia do Varejo em Novembro de 2025:
Resiliência e Heterogeneidade
A análise granular dos dados da PMC de novembro de 2025 oferece insights profundos sobre
o comportamento do consumidor brasileiro e a eficácia das promoções sazonais em um
ambiente de crédito caro.
2.1. O Desempenho Agregado e a Quebra de Expectativas
O avanço de 1,0% no volume de vendas do varejo restrito em novembro, após uma alta de
0,5% em outubro 2, sinaliza uma reaceleração da atividade no quarto trimestre de 2025.
Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE, destaca que este é o segundo mês
consecutivo de crescimento consistente, rompendo com o padrão de estabilidade (variações
próximas de zero) observado entre abril e setembro de 2025.1
Este resultado surpreendeu o mercado, cujas projeções coletadas pela Reuters apontavam
para uma alta de apenas 0,30% na margem e 0,20% na comparação anual.2 O fato de o
resultado real (1,3% anual) ter superado em mais de seis vezes a expectativa anual indica um
erro sistemático nos modelos econométricos dos analistas, que provavelmente
superestimaram o impacto restritivo dos juros de 15% sobre a propensão marginal a consumir
das famílias.
Além disso, o patamar de vendas de novembro de 2025 situa-se 11% acima do nível
pré-pandemia (fevereiro de 2020) 9, evidenciando que o varejo não apenas recuperou as
perdas passadas, mas estabeleceu um novo piso de atividade, sustentado por mudanças
estruturais na renda e no emprego.
2.2. A Influência da "Black Friday" e a Elasticidade-Preço
O desempenho de novembro foi fortemente influenciado pelas promoções da Black Friday.
Segundo o IBGE, esta foi a "melhor promoção desde 2021".1 Este dado é crucial para
entender a psicologia do consumidor atual: ele é altamente sensível a preços e oportunidades
de desconto, mas possui liquidez para aproveitar essas ofertas.
A elasticidade-preço da demanda manifestou-se com clareza no setor de Equipamentos e
material para escritório, informática e comunicação, que registrou um salto de 4,1% na
comparação mensal e impressionantes 9,9% na comparação anual.10 Este comportamento
sugere que, embora o crédito seja caro, as famílias acumularam poupança ou utilizaram a
renda corrente (13º salário e bônus) para adquirir bens duráveis de tecnologia quando o
preço se tornou atrativo. A estratégia dos varejistas de sacrificar margem para girar estoque
encontrou uma demanda reprimida pronta para agir.
2.3. Análise Setorial: Vencedores e Perdedores
A dispersão dos resultados entre as oito atividades pesquisadas pelo IBGE revela a dicotomia
econômica mencionada anteriormente. Sete das oito atividades registraram alta na margem,
o que denota um crescimento disseminado e não apenas concentrado em nichos
específicos.1
Tabela 1: Desempenho Detalhado do Varejo (Novembro 2025)
📋 Desempenho Detalhado do Varejo – Novembro 2025
Varejo Restrito (Total)
Variação mensal (Nov/Out): +1,0%
Variação anual (Nov25/Nov24): +1,3%
Dinâmica: Forte tração impulsionada por renda e promoções.
Equipamentos e Material de Escritório/Informática
Variação mensal: +4,1%
Variação anual: +9,9%
Dinâmica: Efeito Black Friday; alta elasticidade a descontos; demanda reprimida.
Móveis e Eletrodomésticos
Variação mensal: +2,3%
Variação anual: +5,2%
Dinâmica: Recuperação pontual; uso de crediário próprio das lojas e cartões.
Artigos Farmacêuticos, Médicos e Perfumaria
Variação mensal: +2,2%
Variação anual: +7,2%
Dinâmica: Demanda inelástica; envelhecimento populacional; setor defensivo.
Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico
Variação mensal: +2,0%
Variação anual: +4,7%
Dinâmica: Inclui lojas de departamento e vendas online; forte correlação com e-commerce.
Livros, Jornais, Revistas e Papelaria
Variação mensal: +1,5%
Variação anual: +5,9%
Dinâmica: Recuperação de base fraca; sazonalidade de material escolar antecipada.
Hiper e Supermercados, Alimentos, Bebidas
Variação mensal: +1,0%
Variação anual: +1,0%
Dinâmica: Vetor principal: massa salarial e transferências de renda (Bolsa Família).
Combustíveis e Lubrificantes
Variação mensal: +0,6%
Variação anual: N/A
Dinâmica: Mobilidade urbana normalizada; correlação com atividade de serviços.
Tecidos, Vestuário e Calçados
Variação mensal: -0,8%
Variação anual: Negativo
Dinâmica: Único setor em queda; substituição de gastos por bens duráveis na Black Friday.
Fonte: Consolidação de dados IBGE e Broadcast.1
O setor de Hiper e Supermercados, com alta de 1,0% 1, é o fiel da balança. Representando
mais de 50% do peso do índice, seu crescimento é prova cabal de que a restrição monetária
não atingiu o consumo de bens essenciais. A trégua na inflação de alimentos em domicílio 1
aumentou o poder de compra real das famílias de baixa renda, que destinam a maior parte do
orçamento a esta categoria.
Por outro lado, o recuo de 0,8% em Tecidos, Vestuário e Calçados 10 pode ser interpretado
como um efeito substituição: diante do orçamento restrito e das promoções agressivas em
eletrônicos e eletrodomésticos, as famílias adiaram a renovação do guarda-roupa para
priorizar bens de maior valor agregado ofertados com desconto.
2.4. O Varejo Ampliado e a Sensibilidade aos Juros
A análise do Varejo Ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, oferece a
evidência mais clara do impacto dos juros de 15%. O índice geral ampliado cresceu 0,7% na
margem 12, impulsionado pelo varejo restrito, mas os componentes sensíveis ao crédito
mostram fraqueza estrutural.
● Veículos, motos, partes e peças: Registrou queda de 0,2% na margem e um recuo
profundo de 5,8% na comparação anual.9 Este é o setor onde a política monetária
"morde". O financiamento de veículos (CDC) é extremamente sensível à taxa de juros.
Com a Selic a 15%, o custo final ao consumidor supera frequentemente 2,5% ao mês,
inviabilizando a renovação de frota para a classe média típica. A queda de 5,8% em 12
meses confirma que o ciclo de bens duráveis de alto valor financiado está travado.
● Material de Construção: Apresentou alta de 0,8% na margem, mas queda de 3,0% na
comparação anual.9 A leve recuperação mensal pode estar ligada a pequenas reformas
de fim de ano (pagas com 13º salário), mas a queda anual reflete o desaquecimento do
mercado imobiliário e a retração nos financiamentos para construção e reforma.
2.5. Disparidades Regionais
A recuperação do varejo não é uniforme geograficamente. Dados do IBGE mostram que o
crescimento ocorreu em 23 das 27 unidades da federação na comparação mensal. Destaque
para Rondônia (+9,2%), Roraima (+4,5%) e Espírito Santo (+4,3%).11
Esses outliers positivos, especialmente na região Norte, podem estar correlacionados com a
dinâmica do agronegócio e mineração, além de transferências de renda federais que têm
peso desproporcional nessas economias locais. Em contraste, estados mais industrializados
ou dependentes de serviços urbanos, como o Rio de Janeiro (-0,7%), apresentaram
desempenho mais fraco, refletindo as dificuldades fiscais locais e a dinâmica do mercado de
trabalho metropolitano. No Paraná, o varejo acumulou alta de 2,4% no ano, acima da média
nacional, impulsionado por eletrodomésticos (+14,5%) 13, sugerindo uma economia regional
mais resiliente.
3. O Paradoxo da Renda e a Ineficácia da Transmissão
Monetária
A persistência do crescimento do varejo em um ambiente de juros reais ex-ante próximos de
9,5% (Selic de 15% menos inflação esperada de 4,06%) exige uma explicação teórica robusta.
Por que a política monetária não está contendo a demanda agregada conforme previsto nos
modelos do Banco Central?
3.1. O Canal da Renda Sobrepuja o Canal do Crédito
A explicação primordial reside na força extraordinária do mercado de trabalho. A taxa de
desemprego caiu para 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025, a menor da série
histórica do IBGE.14 Mais do que a quantidade de empregos, a qualidade da renda melhorou
em termos agregados.
A massa de rendimento real habitual atingiu o recorde de R$ 363,7 bilhões, com crescimento
de 5,8% no ano e 2,5% no trimestre.15 Isso significa que há uma injeção líquida de quase R$
20 bilhões a mais na economia em comparação com o ano anterior, proveniente apenas do
trabalho.
Esse volume colossal de renda nova entra na economia com alta velocidade de circulação.
Diferentemente do crédito, que depende da confiança e do custo do dinheiro, a renda do
trabalho é convertida quase imediatamente em consumo, especialmente nas faixas de renda
média e baixa. O varejo de supermercados e farmácias é o principal beneficiário desse fluxo.
O consumidor não precisa se endividar para comprar; ele usa o salário valorizado acima da
inflação.
3.2. Pleno Emprego e Pressão Salarial
O nível de 5,2% de desemprego sugere que a economia brasileira opera acima do seu nível de
pleno emprego (NAIRU), gerando pressões salariais. O rendimento médio real habitual
cresceu 4,5% no ano, atingindo R$ 3.574.15
Essa dinâmica cria um ciclo de retroalimentação: empresas contratam para atender a
demanda; a escassez de mão de obra eleva os salários; salários maiores aumentam o
consumo; o consumo sustenta as vendas das empresas. A política monetária, atuando apenas
sobre o custo do capital, tem dificuldade em romper esse ciclo inercial de renda-consumo
sem causar um choque recessivo muito mais profundo, o que o Banco Central tem evitado até
o momento.
3.3. O Efeito Riqueza do Rentismo (O "Hedge" das Classes Altas)
Um aspecto frequentemente subestimado é o efeito distributivo dos juros altos. Com a Selic a
15%, o Brasil oferece um dos maiores retornos reais do mundo para o capital financeiro. As
famílias detentoras de patrimônio líquido investido em renda fixa (CDI, Tesouro Selic,
LCIs/LCAs) experimentam um aumento significativo em sua renda disponível sem necessidade
de esforço produtivo adicional.
Esse fenômeno, conhecido como "efeito renda do rentismo", sustenta o consumo das classes
A e B. Isso explica a resiliência do setor de serviços de alto padrão e do mercado de luxo, que
continua crescendo concentrado em marcas exclusivas (BMW, Mercedes-Benz, Volvo detêm
66% do mercado premium).16 Enquanto a classe média baixa sofre com o encarecimento do
f
inanciamento do carro popular, a classe alta compra veículos premium à vista ou com taxas
subsidiadas pelas montadoras, utilizando os rendimentos de suas aplicações financeiras.
Essa bifurcação do consumo ("K-shaped recovery") dilui a eficácia da política monetária, pois
uma parcela relevante da demanda (a de alta renda) torna-se positivamente correlacionada
com a alta de juros, ao invés de negativamente.
3.4. A Dinâmica do Crédito: Inadimplência vs. Concessão
Embora o crédito esteja caro, ele não desapareceu. O endividamento das famílias está
elevado, mas a concessão de crédito livre ainda mostra alguma vitalidade em linhas de curto
prazo. Contudo, a inadimplência começa a ser um sinal de alerta amarelo. Dados do Banco
Central mostram que a inadimplência da carteira de crédito livre para pessoas físicas subiu
para 6,3%, um avanço de 1,0 ponto percentual em doze meses.17
O aumento da inadimplência, paradoxalmente, convive com o aumento das vendas. Isso
sugere que as famílias estão priorizando o consumo corrente em detrimento do pagamento
de dívidas passadas, ou "rolando" o endividamento enquanto o mercado de trabalho permitir.
Bancos privados já adotam cautela na concessão 18, mas o impulso da renda tem sido
suficiente para manter a roda girando por enquanto.
4. A Inflação no "Último Quilômetro": Inércia e Difusão
A resiliência da atividade econômica cobra seu preço na dinâmica inflacionária. O Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2025 com alta acumulada de
4,26%.19 Embora dentro do intervalo de tolerância (teto de 4,50%), o índice está
desconfortavelmente acima da meta central de 3,00% e mostra sinais qualitativos
preocupantes para 2026.
4.1. O Salto no Índice de Difusão
O sinal de alerta mais estridente vem do índice de difusão — métrica que indica a
porcentagem de itens da cesta do IPCA que apresentaram aumento de preços. Este indicador
saltou de 56% em novembro para 60% em dezembro de 2025.20
Uma difusão de 60% indica que a inflação deixou de ser um problema de choques de oferta
pontuais (como uma quebra de safra afetando apenas alimentos) para se tornar um processo
generalizado de remarcação de preços. A difusão de itens não alimentícios, especificamente,
disparou de 49% para 65% 20, evidenciando que a pressão se espalhou para bens industriais
e serviços.
4.2. A Rigidez dos Serviços Subjacentes
A inflação de serviços, intimamente ligada ao hiato do produto e ao mercado de trabalho,
mostra-se resiliente. A média móvel de três meses dos núcleos de serviços subjacentes
acelerou para 5,1% anualizado em dezembro.21
Com o reajuste do salário mínimo para R$ 1.621 a partir de janeiro de 2026 (+6,78%) 22,
estabelece-se um novo piso nominal para os custos de serviços intensivos em mão de obra
(domésticos, reparos, beleza, alimentação fora do lar). Essa indexação salarial atua como um
mecanismo de realimentação inercial, dificultando a convergência da inflação para a meta de
3% sem uma desaceleração econômica que o atual cenário de pleno emprego não permite.
4.3. Expectativas Desancoradas
O mercado financeiro, captando esses sinais, mantém suas expectativas de inflação
desancoradas. O Boletim Focus projeta um IPCA de 4,06% para 2026 e 3,80% para 2027.23 O
fato de as expectativas de longo prazo (2027-2028) estarem estacionadas acima da meta
sugere uma falta de credibilidade na capacidade do Banco Central de entregar a inflação no
alvo, dada a pressão fiscal e a inércia da atividade. Esta desancoragem obriga o BC a manter
os juros mais altos por mais tempo, elevando o custo do desinflacionamento.
5. Dominância Fiscal e o Orçamento de 2026: O
Elefante na Sala
A discussão macroeconômica brasileira em 2026 é inevitavelmente gravitada pelo conceito de
Dominância Fiscal. Este fenômeno, teorizado por Sargent e Wallace, descreve uma situação
onde a política monetária perde a primazia no controle da inflação porque a política fiscal
torna-se insustentável. Se o mercado acredita que o governo não pagará sua dívida através
de superávits futuros, mas sim através de inflação (monetização), subir juros torna-se
contraproducente, pois apenas acelera o crescimento da dívida e o risco de calote,
depreciando o câmbio e gerando mais inflação.
5.1. O Orçamento Eleitoral e a Expansão de Gastos
A sanção do Orçamento de 2026 pelo Presidente Lula, ocorrida em 14 de janeiro, confirmou
os temores de uma política fiscal expansionista em ano eleitoral. O orçamento prevê
despesas totais de R$ 6,5 trilhões (incluindo rolagem da dívida) e, crucialmente, um volume
recorde de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.7
Essas emendas, em grande parte impositivas, funcionam como uma injeção direta de liquidez
nas bases eleitorais (municípios), pulverizando recursos em obras e serviços locais. O efeito
multiplicador desses gastos é alto e ocorre justamente no período pré-eleitoral,
contrabalanceando o esforço contracionista da Selic.
Além disso, programas sociais como o Bolsa Família (R$ 158,6 bilhões) e o Pé-de-Meia (R$
11,47 bilhões) mantêm a renda das camadas mais baixas elevada 24, sustentando o consumo
básico que observamos nos dados do varejo.
5.2. A Meta Fiscal: Ficção vs. Realidade
Oficialmente, a meta fiscal para 2026 é de um superávit primário de 0,25% do PIB (aprox. R$
34,5 bilhões).24 Contudo, a credibilidade dessa meta é nula junto aos agentes de mercado. O
Boletim Focus projeta um déficit primário de 0,53% do PIB para 2026.25
A discrepância entre o discurso oficial e a projeção de mercado deve-se à prática recorrente
de excluir despesas do cálculo da meta (como os R$ 57 bilhões em precatórios) e à
superestimação de receitas. Economistas como Felipe Salto e Rafaela Vitória alertam que a
meta fiscal precisará ser alterada ou que o governo dependerá de receitas extraordinárias
incertas para fechar as contas.26
Essa falta de transparência e compromisso fiscal real corrói a âncora fiscal, elevando o
prêmio de risco embutido na curva de juros.
5.3. A Trajetória da Dívida e o Risco de Ruptura
A consequência aritmética de déficits primários recorrentes somados a juros reais elevados é
o crescimento explosivo da dívida pública. O economista-chefe da XP, Caio Megale, alerta
que "será difícil alcançar meta fiscal positiva em 2026" e que o país vive "à beira da
dominância fiscal".27
Projeções de mercado indicam que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) pode atingir 82%
do PIB ao final de 2026 e caminhar para 90% até 2028 se não houver correção de rota.28
Com a Selic a 15%, o custo de carregamento dessa dívida é proibitivo. O governo gasta cerca
de 7-8% do PIB apenas com o pagamento de juros nominais. Isso cria um círculo vicioso: o
risco fiscal eleva os juros neutros; juros altos pioram a dívida; a piora da dívida eleva o risco
f
iscal.
Economistas divergem se já estamos em dominância fiscal plena ou não 29, mas o
comportamento dos ativos — com a curva de juros longa abrindo taxas apesar da inflação
corrente "controlada" — sugere que o mercado opera sob a premissa de dominância fiscal
incipiente.
6. O Cenário Internacional: Ventos Contrários de
Washington
A complexidade doméstica é amplificada por um ambiente externo que deixou de ser
favorável. A expectativa de um ciclo agressivo de cortes de juros nos Estados Unidos foi
frustrada.
6.1. O "Fed" e a Geopolítica de Trump
O Federal Reserve enfrenta seu próprio dilema. Com a economia americana resiliente e a
inflação ainda acima da meta de 2%, a precificação de cortes de juros foi adiada. Bancos
como J.P. Morgan agora preveem manutenção de juros altos ou até altas futuras em cenários
extremos (2027), enquanto Goldman Sachs e Barclays adiaram a expectativa de cortes para
meados ou final de 2026.31
A tensão política entre Donald Trump e Jerome Powell adiciona volatilidade.32 A possibilidade
de interferência política no Fed ou de políticas fiscais expansionistas (cortes de impostos) nos
EUA mantém os Treasuries americanos pagando taxas atrativas.
6.2. Impacto no "Carry Trade" e no Câmbio
Para o Brasil, juros altos nos EUA (na faixa de 3,5% - 4,0% ou mais) reduzem o diferencial de
juros (carry trade). Embora a Selic de 15% ainda ofereça um prêmio robusto, o risco fiscal
brasileiro diminui a atratividade ajustada ao risco dessa operação.
Isso pressiona a taxa de câmbio. O dólar abriu o dia 15/01/2026 cotado a R$ 5,38, com
volatilidade.33 Um câmbio depreciado atua como mais um vetor inflacionário (via preços de
importados e combustíveis), limitando ainda mais o espaço de manobra do Banco Central do
Brasil.
7. Mercado Financeiro: Reação e Precificação
(15/01/2026)
A reação dos mercados financeiros aos dados de varejo e ao cenário orçamentário reflete a
cautela extrema dos investidores.
7.1. Inclinação da Curva de Juros (Steepening)
Observamos um movimento clássico de inclinação da curva de juros (DI Futuro).
● Parte Curta (2026-2027): As taxas operam estáveis ou com leve alta, precificando a
manutenção da Selic em 15% por um período prolongado (Higher for Longer). O
mercado abandonou as apostas de cortes no curto prazo.34
● Parte Longa (2029-2035): As taxas abriram significativamente. O Tesouro IPCA+ 2035
atingiu rendimento de IPCA + 7,66%, e o prefixado 2035 chegou a 13,69%.35
○ Interpretação: O prêmio de risco na parte longa reflete o temor de insolvência fiscal
ou de retorno da inflação descontrolada. Taxas reais acima de 7,5% são
historicamente associadas a períodos de crise aguda de confiança.
7.2. Bolsa de Valores e Setores
O Ibovespa renovou máxima histórica aos 165 mil pontos 36, mas esse número esconde uma
rotação setorial importante.
● Varejo Cíclico: Ações como Magazine Luiza e Casas Bahia tiveram alta no dia
impulsionadas pelo dado de curto prazo do varejo, mas sofrem estruturalmente com o
custo da dívida.
● Setor Financeiro e Alta Renda: Bancos (Itaú, Bradesco) e varejo de alta renda (Vivara)
mostram desempenho superior, beneficiando-se dos spreads altos e da resiliência do
consumo de luxo.
8. Perspectivas para a Política Monetária: O Que
Esperar do Copom?
Diante do quadro de atividade aquecida, inflação inercial e risco fiscal, a próxima reunião do
Copom (27 e 28 de janeiro de 2026) reveste-se de importância crítica.37
8.1. Cenários de Decisão
1. Cenário Base (Manutenção em 15,00%): É o consenso majoritário. O BC deve manter a
taxa inalterada, mas endurecer o comunicado (Hawk), explicitando que a convergência
da inflação está ameaçada pela política fiscal e pela atividade forte. A estratégia será
manter os juros restritivos por tempo indeterminado até que o hiato do produto abra ou
as expectativas reancorem.
2. Cenário de Risco (Elevação de Juros): Embora menos provável no curto prazo, a tese
de gestoras como a Adam Capital — que veem chance de Selic parada ou até subindo —
ganha força.38 Se o dólar disparar ou a inflação de serviços acelerar mais, o BC pode ser
forçado a dar um "choque de credibilidade" elevando a taxa, a despeito do custo
político.
8.2. A Narrativa da "Ineficácia"
O BC precisará endereçar a narrativa de que a política monetária "não funciona". A
comunicação deve enfatizar que a política está funcionando (vide setor de veículos e crédito
corporativo), mas que seus efeitos estão sendo mascarados pelo impulso fiscal e de renda. O
reconhecimento explícito da descoordenação entre política fiscal e monetária pode gerar
ruído político com o governo, mas é necessário para a transparência técnica.
9. Conclusão e Estratégia
O Brasil inicia 2026 sob o signo de um desequilíbrio macroeconômico perigoso: uma
economia que cresce impulsionada por gastos públicos e consumo das famílias, mas que
acumula desequilíbrios fiscais e inflacionários que cobram seu preço na taxa de juros.
Para investidores e gestores corporativos, a leitura é clara:
1. Não apostar contra o consumo no curto prazo: O varejo deve continuar
surpreendendo positivamente no primeiro semestre devido ao calendário eleitoral e à
renda forte.
2. Cautela extrema com a dívida pública: O risco de cauda fiscal é elevado. A proteção
em ativos reais ou indexados à inflação (IPCA+) de prazos curtos/médios é preferível a
prefixados longos.
3. Juros "Higher for Longer": Planejamentos financeiros devem assumir um custo de
capital (Selic) de dois dígitos por todo o horizonte de 2026. A era dos juros baixos
📊 Indicadores-Chave e Projeções – Brasil (Jan/26 → Final 2026)
💰 Selic
Atual: 15,00%
Projeção: 12,25%
Tendência: 🔼 Alta (manutenção em 14–15%)
📈 IPCA (Inflação 12m)
Atual: 4,26%
Projeção: 4,06%
Tendência: 🔼 Alta (serviços pressionados)
📊 PIB
Atual: N/A
Projeção: 1,80%
Tendência: 🔼 Alta (revisões para cima após varejo forte)
📉 Déficit Primário
Atual: -0,48% (2025)
Projeção: -0,53%
Tendência: ⚠️ Piora (gastos eleitorais)
💵 Dólar
Atual: R$ 5,38
Projeção: R$ 5,40+
Tendência: 🌪️ Volátil (risco fiscal)
OS JUROS NÃO CAEM MAIS, JÁ
ESTAMOS EM DOMINÂNCIA FISCAL
Relatório de Inteligência Macroeconômica: A Dicotomia do
Crescimento sob Juros Restritivos e o Risco de Dominância Fiscal
Data: 15 de Janeiro de 2026
Assunto: Análise Estrutural dos Dados de Varejo de Novembro/2025, Dinâmica Inflacionária e
Cenário Fiscal para o Ano Eleitoral de 2026.
1. Sumário Executivo e Tese Central
A divulgação dos resultados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) na manhã desta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, marca
um ponto de inflexão na análise da conjuntura econômica nacional. Os dados revelam um
crescimento de 1,0% no volume de vendas do varejo restrito em novembro de 2025 na
comparação com outubro, e uma expansão de 1,3% na comparação interanual.1 Este
desempenho, significativamente acima da mediana das expectativas de mercado — que
projetava uma alta modesta de 0,30% na margem 2 — consolida uma narrativa que desafia a
ortodoxia dos modelos de transmissão da política monetária: a economia brasileira apresenta
uma resistência estrutural ao ciclo de aperto monetário, mantendo o consumo aquecido
mesmo diante de uma Taxa Selic estacionada em patamares contracionistas de 15,00% ao
ano.5
A tese central deste relatório é que o Brasil atravessa um fenômeno de "imunização parcial"
aos juros. Esta imunização é sustentada por três pilares interconectados que neutralizam o
efeito da política monetária: (1) um canal de renda historicamente robusto, com desemprego
em mínimas de 5,2% e massa salarial recorde, que se sobrepõe ao canal de crédito; (2) um
efeito riqueza perverso derivado do rentismo, onde as taxas de juros elevadas transferem
renda para as classes de maior poder aquisitivo, sustentando o consumo de bens e serviços
premium; e (3) um impulso fiscal expansionista em ano eleitoral, materializado no Orçamento
de 2026 recém-sancionado com R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.7
Este cenário coloca o Banco Central do Brasil em uma encruzilhada complexa. A convergência
da inflação para a meta de 3,0% torna-se uma tarefa de Sísifo, onde o esforço monetário é
constantemente compensado pela expansão fiscal e pela inércia dos preços de serviços. O
risco de dominância fiscal — momento em que a política monetária perde a capacidade de
controlar o nível de preços devido à insustentabilidade da dívida pública — deixa de ser uma
hipótese teórica remota para figurar como um cenário de cauda com probabilidade crescente
nas avaliações de risco para o final da década.
Ao longo deste documento, dissecaremos as minúcias dos dados setoriais do varejo, a
dinâmica inflacionária subjacente, as pressões do calendário eleitoral sobre as contas
públicas e as implicações desse "novo normal" de juros altos para a alocação de capital e a
estratégia macroeconômica.
2. Anatomia do Varejo em Novembro de 2025:
Resiliência e Heterogeneidade
A análise granular dos dados da PMC de novembro de 2025 oferece insights profundos sobre
o comportamento do consumidor brasileiro e a eficácia das promoções sazonais em um
ambiente de crédito caro.
2.1. O Desempenho Agregado e a Quebra de Expectativas
O avanço de 1,0% no volume de vendas do varejo restrito em novembro, após uma alta de
0,5% em outubro 2, sinaliza uma reaceleração da atividade no quarto trimestre de 2025.
Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE, destaca que este é o segundo mês
consecutivo de crescimento consistente, rompendo com o padrão de estabilidade (variações
próximas de zero) observado entre abril e setembro de 2025.1
Este resultado surpreendeu o mercado, cujas projeções coletadas pela Reuters apontavam
para uma alta de apenas 0,30% na margem e 0,20% na comparação anual.2 O fato de o
resultado real (1,3% anual) ter superado em mais de seis vezes a expectativa anual indica um
erro sistemático nos modelos econométricos dos analistas, que provavelmente
superestimaram o impacto restritivo dos juros de 15% sobre a propensão marginal a consumir
das famílias.
Além disso, o patamar de vendas de novembro de 2025 situa-se 11% acima do nível
pré-pandemia (fevereiro de 2020) 9, evidenciando que o varejo não apenas recuperou as
perdas passadas, mas estabeleceu um novo piso de atividade, sustentado por mudanças
estruturais na renda e no emprego.
2.2. A Influência da "Black Friday" e a Elasticidade-Preço
O desempenho de novembro foi fortemente influenciado pelas promoções da Black Friday.
Segundo o IBGE, esta foi a "melhor promoção desde 2021".1 Este dado é crucial para
entender a psicologia do consumidor atual: ele é altamente sensível a preços e oportunidades
de desconto, mas possui liquidez para aproveitar essas ofertas.
A elasticidade-preço da demanda manifestou-se com clareza no setor de Equipamentos e
material para escritório, informática e comunicação, que registrou um salto de 4,1% na
comparação mensal e impressionantes 9,9% na comparação anual.10 Este comportamento
sugere que, embora o crédito seja caro, as famílias acumularam poupança ou utilizaram a
renda corrente (13º salário e bônus) para adquirir bens duráveis de tecnologia quando o
preço se tornou atrativo. A estratégia dos varejistas de sacrificar margem para girar estoque
encontrou uma demanda reprimida pronta para agir.
2.3. Análise Setorial: Vencedores e Perdedores
A dispersão dos resultados entre as oito atividades pesquisadas pelo IBGE revela a dicotomia
econômica mencionada anteriormente. Sete das oito atividades registraram alta na margem,
o que denota um crescimento disseminado e não apenas concentrado em nichos
específicos.1
Tabela 1: Desempenho Detalhado do Varejo (Novembro 2025)
📋 Desempenho Detalhado do Varejo – Novembro 2025
Varejo Restrito (Total)
Variação mensal (Nov/Out): +1,0%
Variação anual (Nov25/Nov24): +1,3%
Dinâmica: Forte tração impulsionada por renda e promoções.
Equipamentos e Material de Escritório/Informática
Variação mensal: +4,1%
Variação anual: +9,9%
Dinâmica: Efeito Black Friday; alta elasticidade a descontos; demanda reprimida.
Móveis e Eletrodomésticos
Variação mensal: +2,3%
Variação anual: +5,2%
Dinâmica: Recuperação pontual; uso de crediário próprio das lojas e cartões.
Artigos Farmacêuticos, Médicos e Perfumaria
Variação mensal: +2,2%
Variação anual: +7,2%
Dinâmica: Demanda inelástica; envelhecimento populacional; setor defensivo.
Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico
Variação mensal: +2,0%
Variação anual: +4,7%
Dinâmica: Inclui lojas de departamento e vendas online; forte correlação com e-commerce.
Livros, Jornais, Revistas e Papelaria
Variação mensal: +1,5%
Variação anual: +5,9%
Dinâmica: Recuperação de base fraca; sazonalidade de material escolar antecipada.
Hiper e Supermercados, Alimentos, Bebidas
Variação mensal: +1,0%
Variação anual: +1,0%
Dinâmica: Vetor principal: massa salarial e transferências de renda (Bolsa Família).
Combustíveis e Lubrificantes
Variação mensal: +0,6%
Variação anual: N/A
Dinâmica: Mobilidade urbana normalizada; correlação com atividade de serviços.
Tecidos, Vestuário e Calçados
Variação mensal: -0,8%
Variação anual: Negativo
Dinâmica: Único setor em queda; substituição de gastos por bens duráveis na Black Friday.
Fonte: Consolidação de dados IBGE e Broadcast.1
O setor de Hiper e Supermercados, com alta de 1,0% 1, é o fiel da balança. Representando
mais de 50% do peso do índice, seu crescimento é prova cabal de que a restrição monetária
não atingiu o consumo de bens essenciais. A trégua na inflação de alimentos em domicílio 1
aumentou o poder de compra real das famílias de baixa renda, que destinam a maior parte do
orçamento a esta categoria.
Por outro lado, o recuo de 0,8% em Tecidos, Vestuário e Calçados 10 pode ser interpretado
como um efeito substituição: diante do orçamento restrito e das promoções agressivas em
eletrônicos e eletrodomésticos, as famílias adiaram a renovação do guarda-roupa para
priorizar bens de maior valor agregado ofertados com desconto.
2.4. O Varejo Ampliado e a Sensibilidade aos Juros
A análise do Varejo Ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, oferece a
evidência mais clara do impacto dos juros de 15%. O índice geral ampliado cresceu 0,7% na
margem 12, impulsionado pelo varejo restrito, mas os componentes sensíveis ao crédito
mostram fraqueza estrutural.
● Veículos, motos, partes e peças: Registrou queda de 0,2% na margem e um recuo
profundo de 5,8% na comparação anual.9 Este é o setor onde a política monetária
"morde". O financiamento de veículos (CDC) é extremamente sensível à taxa de juros.
Com a Selic a 15%, o custo final ao consumidor supera frequentemente 2,5% ao mês,
inviabilizando a renovação de frota para a classe média típica. A queda de 5,8% em 12
meses confirma que o ciclo de bens duráveis de alto valor financiado está travado.
● Material de Construção: Apresentou alta de 0,8% na margem, mas queda de 3,0% na
comparação anual.9 A leve recuperação mensal pode estar ligada a pequenas reformas
de fim de ano (pagas com 13º salário), mas a queda anual reflete o desaquecimento do
mercado imobiliário e a retração nos financiamentos para construção e reforma.
2.5. Disparidades Regionais
A recuperação do varejo não é uniforme geograficamente. Dados do IBGE mostram que o
crescimento ocorreu em 23 das 27 unidades da federação na comparação mensal. Destaque
para Rondônia (+9,2%), Roraima (+4,5%) e Espírito Santo (+4,3%).11
Esses outliers positivos, especialmente na região Norte, podem estar correlacionados com a
dinâmica do agronegócio e mineração, além de transferências de renda federais que têm
peso desproporcional nessas economias locais. Em contraste, estados mais industrializados
ou dependentes de serviços urbanos, como o Rio de Janeiro (-0,7%), apresentaram
desempenho mais fraco, refletindo as dificuldades fiscais locais e a dinâmica do mercado de
trabalho metropolitano. No Paraná, o varejo acumulou alta de 2,4% no ano, acima da média
nacional, impulsionado por eletrodomésticos (+14,5%) 13, sugerindo uma economia regional
mais resiliente.
3. O Paradoxo da Renda e a Ineficácia da Transmissão
Monetária
A persistência do crescimento do varejo em um ambiente de juros reais ex-ante próximos de
9,5% (Selic de 15% menos inflação esperada de 4,06%) exige uma explicação teórica robusta.
Por que a política monetária não está contendo a demanda agregada conforme previsto nos
modelos do Banco Central?
3.1. O Canal da Renda Sobrepuja o Canal do Crédito
A explicação primordial reside na força extraordinária do mercado de trabalho. A taxa de
desemprego caiu para 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025, a menor da série
histórica do IBGE.14 Mais do que a quantidade de empregos, a qualidade da renda melhorou
em termos agregados.
A massa de rendimento real habitual atingiu o recorde de R$ 363,7 bilhões, com crescimento
de 5,8% no ano e 2,5% no trimestre.15 Isso significa que há uma injeção líquida de quase R$
20 bilhões a mais na economia em comparação com o ano anterior, proveniente apenas do
trabalho.
Esse volume colossal de renda nova entra na economia com alta velocidade de circulação.
Diferentemente do crédito, que depende da confiança e do custo do dinheiro, a renda do
trabalho é convertida quase imediatamente em consumo, especialmente nas faixas de renda
média e baixa. O varejo de supermercados e farmácias é o principal beneficiário desse fluxo.
O consumidor não precisa se endividar para comprar; ele usa o salário valorizado acima da
inflação.
3.2. Pleno Emprego e Pressão Salarial
O nível de 5,2% de desemprego sugere que a economia brasileira opera acima do seu nível de
pleno emprego (NAIRU), gerando pressões salariais. O rendimento médio real habitual
cresceu 4,5% no ano, atingindo R$ 3.574.15
Essa dinâmica cria um ciclo de retroalimentação: empresas contratam para atender a
demanda; a escassez de mão de obra eleva os salários; salários maiores aumentam o
consumo; o consumo sustenta as vendas das empresas. A política monetária, atuando apenas
sobre o custo do capital, tem dificuldade em romper esse ciclo inercial de renda-consumo
sem causar um choque recessivo muito mais profundo, o que o Banco Central tem evitado até
o momento.
3.3. O Efeito Riqueza do Rentismo (O "Hedge" das Classes Altas)
Um aspecto frequentemente subestimado é o efeito distributivo dos juros altos. Com a Selic a
15%, o Brasil oferece um dos maiores retornos reais do mundo para o capital financeiro. As
famílias detentoras de patrimônio líquido investido em renda fixa (CDI, Tesouro Selic,
LCIs/LCAs) experimentam um aumento significativo em sua renda disponível sem necessidade
de esforço produtivo adicional.
Esse fenômeno, conhecido como "efeito renda do rentismo", sustenta o consumo das classes
A e B. Isso explica a resiliência do setor de serviços de alto padrão e do mercado de luxo, que
continua crescendo concentrado em marcas exclusivas (BMW, Mercedes-Benz, Volvo detêm
66% do mercado premium).16 Enquanto a classe média baixa sofre com o encarecimento do
f
inanciamento do carro popular, a classe alta compra veículos premium à vista ou com taxas
subsidiadas pelas montadoras, utilizando os rendimentos de suas aplicações financeiras.
Essa bifurcação do consumo ("K-shaped recovery") dilui a eficácia da política monetária, pois
uma parcela relevante da demanda (a de alta renda) torna-se positivamente correlacionada
com a alta de juros, ao invés de negativamente.
3.4. A Dinâmica do Crédito: Inadimplência vs. Concessão
Embora o crédito esteja caro, ele não desapareceu. O endividamento das famílias está
elevado, mas a concessão de crédito livre ainda mostra alguma vitalidade em linhas de curto
prazo. Contudo, a inadimplência começa a ser um sinal de alerta amarelo. Dados do Banco
Central mostram que a inadimplência da carteira de crédito livre para pessoas físicas subiu
para 6,3%, um avanço de 1,0 ponto percentual em doze meses.17
O aumento da inadimplência, paradoxalmente, convive com o aumento das vendas. Isso
sugere que as famílias estão priorizando o consumo corrente em detrimento do pagamento
de dívidas passadas, ou "rolando" o endividamento enquanto o mercado de trabalho permitir.
Bancos privados já adotam cautela na concessão 18, mas o impulso da renda tem sido
suficiente para manter a roda girando por enquanto.
4. A Inflação no "Último Quilômetro": Inércia e Difusão
A resiliência da atividade econômica cobra seu preço na dinâmica inflacionária. O Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2025 com alta acumulada de
4,26%.19 Embora dentro do intervalo de tolerância (teto de 4,50%), o índice está
desconfortavelmente acima da meta central de 3,00% e mostra sinais qualitativos
preocupantes para 2026.
4.1. O Salto no Índice de Difusão
O sinal de alerta mais estridente vem do índice de difusão — métrica que indica a
porcentagem de itens da cesta do IPCA que apresentaram aumento de preços. Este indicador
saltou de 56% em novembro para 60% em dezembro de 2025.20
Uma difusão de 60% indica que a inflação deixou de ser um problema de choques de oferta
pontuais (como uma quebra de safra afetando apenas alimentos) para se tornar um processo
generalizado de remarcação de preços. A difusão de itens não alimentícios, especificamente,
disparou de 49% para 65% 20, evidenciando que a pressão se espalhou para bens industriais
e serviços.
4.2. A Rigidez dos Serviços Subjacentes
A inflação de serviços, intimamente ligada ao hiato do produto e ao mercado de trabalho,
mostra-se resiliente. A média móvel de três meses dos núcleos de serviços subjacentes
acelerou para 5,1% anualizado em dezembro.21
Com o reajuste do salário mínimo para R$ 1.621 a partir de janeiro de 2026 (+6,78%) 22,
estabelece-se um novo piso nominal para os custos de serviços intensivos em mão de obra
(domésticos, reparos, beleza, alimentação fora do lar). Essa indexação salarial atua como um
mecanismo de realimentação inercial, dificultando a convergência da inflação para a meta de
3% sem uma desaceleração econômica que o atual cenário de pleno emprego não permite.
4.3. Expectativas Desancoradas
O mercado financeiro, captando esses sinais, mantém suas expectativas de inflação
desancoradas. O Boletim Focus projeta um IPCA de 4,06% para 2026 e 3,80% para 2027.23 O
fato de as expectativas de longo prazo (2027-2028) estarem estacionadas acima da meta
sugere uma falta de credibilidade na capacidade do Banco Central de entregar a inflação no
alvo, dada a pressão fiscal e a inércia da atividade. Esta desancoragem obriga o BC a manter
os juros mais altos por mais tempo, elevando o custo do desinflacionamento.
5. Dominância Fiscal e o Orçamento de 2026: O
Elefante na Sala
A discussão macroeconômica brasileira em 2026 é inevitavelmente gravitada pelo conceito de
Dominância Fiscal. Este fenômeno, teorizado por Sargent e Wallace, descreve uma situação
onde a política monetária perde a primazia no controle da inflação porque a política fiscal
torna-se insustentável. Se o mercado acredita que o governo não pagará sua dívida através
de superávits futuros, mas sim através de inflação (monetização), subir juros torna-se
contraproducente, pois apenas acelera o crescimento da dívida e o risco de calote,
depreciando o câmbio e gerando mais inflação.
5.1. O Orçamento Eleitoral e a Expansão de Gastos
A sanção do Orçamento de 2026 pelo Presidente Lula, ocorrida em 14 de janeiro, confirmou
os temores de uma política fiscal expansionista em ano eleitoral. O orçamento prevê
despesas totais de R$ 6,5 trilhões (incluindo rolagem da dívida) e, crucialmente, um volume
recorde de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.7
Essas emendas, em grande parte impositivas, funcionam como uma injeção direta de liquidez
nas bases eleitorais (municípios), pulverizando recursos em obras e serviços locais. O efeito
multiplicador desses gastos é alto e ocorre justamente no período pré-eleitoral,
contrabalanceando o esforço contracionista da Selic.
Além disso, programas sociais como o Bolsa Família (R$ 158,6 bilhões) e o Pé-de-Meia (R$
11,47 bilhões) mantêm a renda das camadas mais baixas elevada 24, sustentando o consumo
básico que observamos nos dados do varejo.
5.2. A Meta Fiscal: Ficção vs. Realidade
Oficialmente, a meta fiscal para 2026 é de um superávit primário de 0,25% do PIB (aprox. R$
34,5 bilhões).24 Contudo, a credibilidade dessa meta é nula junto aos agentes de mercado. O
Boletim Focus projeta um déficit primário de 0,53% do PIB para 2026.25
A discrepância entre o discurso oficial e a projeção de mercado deve-se à prática recorrente
de excluir despesas do cálculo da meta (como os R$ 57 bilhões em precatórios) e à
superestimação de receitas. Economistas como Felipe Salto e Rafaela Vitória alertam que a
meta fiscal precisará ser alterada ou que o governo dependerá de receitas extraordinárias
incertas para fechar as contas.26
Essa falta de transparência e compromisso fiscal real corrói a âncora fiscal, elevando o
prêmio de risco embutido na curva de juros.
5.3. A Trajetória da Dívida e o Risco de Ruptura
A consequência aritmética de déficits primários recorrentes somados a juros reais elevados é
o crescimento explosivo da dívida pública. O economista-chefe da XP, Caio Megale, alerta
que "será difícil alcançar meta fiscal positiva em 2026" e que o país vive "à beira da
dominância fiscal".27
Projeções de mercado indicam que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) pode atingir 82%
do PIB ao final de 2026 e caminhar para 90% até 2028 se não houver correção de rota.28
Com a Selic a 15%, o custo de carregamento dessa dívida é proibitivo. O governo gasta cerca
de 7-8% do PIB apenas com o pagamento de juros nominais. Isso cria um círculo vicioso: o
risco fiscal eleva os juros neutros; juros altos pioram a dívida; a piora da dívida eleva o risco
f
iscal.
Economistas divergem se já estamos em dominância fiscal plena ou não 29, mas o
comportamento dos ativos — com a curva de juros longa abrindo taxas apesar da inflação
corrente "controlada" — sugere que o mercado opera sob a premissa de dominância fiscal
incipiente.
6. O Cenário Internacional: Ventos Contrários de
Washington
A complexidade doméstica é amplificada por um ambiente externo que deixou de ser
favorável. A expectativa de um ciclo agressivo de cortes de juros nos Estados Unidos foi
frustrada.
6.1. O "Fed" e a Geopolítica de Trump
O Federal Reserve enfrenta seu próprio dilema. Com a economia americana resiliente e a
inflação ainda acima da meta de 2%, a precificação de cortes de juros foi adiada. Bancos
como J.P. Morgan agora preveem manutenção de juros altos ou até altas futuras em cenários
extremos (2027), enquanto Goldman Sachs e Barclays adiaram a expectativa de cortes para
meados ou final de 2026.31
A tensão política entre Donald Trump e Jerome Powell adiciona volatilidade.32 A possibilidade
de interferência política no Fed ou de políticas fiscais expansionistas (cortes de impostos) nos
EUA mantém os Treasuries americanos pagando taxas atrativas.
6.2. Impacto no "Carry Trade" e no Câmbio
Para o Brasil, juros altos nos EUA (na faixa de 3,5% - 4,0% ou mais) reduzem o diferencial de
juros (carry trade). Embora a Selic de 15% ainda ofereça um prêmio robusto, o risco fiscal
brasileiro diminui a atratividade ajustada ao risco dessa operação.
Isso pressiona a taxa de câmbio. O dólar abriu o dia 15/01/2026 cotado a R$ 5,38, com
volatilidade.33 Um câmbio depreciado atua como mais um vetor inflacionário (via preços de
importados e combustíveis), limitando ainda mais o espaço de manobra do Banco Central do
Brasil.
7. Mercado Financeiro: Reação e Precificação
(15/01/2026)
A reação dos mercados financeiros aos dados de varejo e ao cenário orçamentário reflete a
cautela extrema dos investidores.
7.1. Inclinação da Curva de Juros (Steepening)
Observamos um movimento clássico de inclinação da curva de juros (DI Futuro).
● Parte Curta (2026-2027): As taxas operam estáveis ou com leve alta, precificando a
manutenção da Selic em 15% por um período prolongado (Higher for Longer). O
mercado abandonou as apostas de cortes no curto prazo.34
● Parte Longa (2029-2035): As taxas abriram significativamente. O Tesouro IPCA+ 2035
atingiu rendimento de IPCA + 7,66%, e o prefixado 2035 chegou a 13,69%.35
○ Interpretação: O prêmio de risco na parte longa reflete o temor de insolvência fiscal
ou de retorno da inflação descontrolada. Taxas reais acima de 7,5% são
historicamente associadas a períodos de crise aguda de confiança.
7.2. Bolsa de Valores e Setores
O Ibovespa renovou máxima histórica aos 165 mil pontos 36, mas esse número esconde uma
rotação setorial importante.
● Varejo Cíclico: Ações como Magazine Luiza e Casas Bahia tiveram alta no dia
impulsionadas pelo dado de curto prazo do varejo, mas sofrem estruturalmente com o
custo da dívida.
● Setor Financeiro e Alta Renda: Bancos (Itaú, Bradesco) e varejo de alta renda (Vivara)
mostram desempenho superior, beneficiando-se dos spreads altos e da resiliência do
consumo de luxo.
8. Perspectivas para a Política Monetária: O Que
Esperar do Copom?
Diante do quadro de atividade aquecida, inflação inercial e risco fiscal, a próxima reunião do
Copom (27 e 28 de janeiro de 2026) reveste-se de importância crítica.37
8.1. Cenários de Decisão
1. Cenário Base (Manutenção em 15,00%): É o consenso majoritário. O BC deve manter a
taxa inalterada, mas endurecer o comunicado (Hawk), explicitando que a convergência
da inflação está ameaçada pela política fiscal e pela atividade forte. A estratégia será
manter os juros restritivos por tempo indeterminado até que o hiato do produto abra ou
as expectativas reancorem.
2. Cenário de Risco (Elevação de Juros): Embora menos provável no curto prazo, a tese
de gestoras como a Adam Capital — que veem chance de Selic parada ou até subindo —
ganha força.38 Se o dólar disparar ou a inflação de serviços acelerar mais, o BC pode ser
forçado a dar um "choque de credibilidade" elevando a taxa, a despeito do custo
político.
8.2. A Narrativa da "Ineficácia"
O BC precisará endereçar a narrativa de que a política monetária "não funciona". A
comunicação deve enfatizar que a política está funcionando (vide setor de veículos e crédito
corporativo), mas que seus efeitos estão sendo mascarados pelo impulso fiscal e de renda. O
reconhecimento explícito da descoordenação entre política fiscal e monetária pode gerar
ruído político com o governo, mas é necessário para a transparência técnica.
9. Conclusão e Estratégia
O Brasil inicia 2026 sob o signo de um desequilíbrio macroeconômico perigoso: uma
economia que cresce impulsionada por gastos públicos e consumo das famílias, mas que
acumula desequilíbrios fiscais e inflacionários que cobram seu preço na taxa de juros.
Para investidores e gestores corporativos, a leitura é clara:
1. Não apostar contra o consumo no curto prazo: O varejo deve continuar
surpreendendo positivamente no primeiro semestre devido ao calendário eleitoral e à
renda forte.
2. Cautela extrema com a dívida pública: O risco de cauda fiscal é elevado. A proteção
em ativos reais ou indexados à inflação (IPCA+) de prazos curtos/médios é preferível a
prefixados longos.
3. Juros "Higher for Longer": Planejamentos financeiros devem assumir um custo de
capital (Selic) de dois dígitos por todo o horizonte de 2026. A era dos juros baixos
📊 Indicadores-Chave e Projeções – Brasil (Jan/26 → Final 2026)
💰 Selic
Atual: 15,00%
Projeção: 12,25%
Tendência: 🔼 Alta (manutenção em 14–15%)
📈 IPCA (Inflação 12m)
Atual: 4,26%
Projeção: 4,06%
Tendência: 🔼 Alta (serviços pressionados)
📊 PIB
Atual: N/A
Projeção: 1,80%
Tendência: 🔼 Alta (revisões para cima após varejo forte)
📉 Déficit Primário
Atual: -0,48% (2025)
Projeção: -0,53%
Tendência: ⚠️ Piora (gastos eleitorais)
💵 Dólar
Atual: R$ 5,38
Projeção: R$ 5,40+
Tendência: 🌪️ Volátil (risco fiscal)
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